Vai ter filho viajante, vai!
Thiago e Túlio adoram viajar, são fascinados por conhecer outros lugares. Acho muito legal, mas mãe é mãe e morro de preocupação se vão adoecer por lá.
E aconteceu.
Leiam e perdoem a falta de acentos. É o teclado de lá.
Bj
“Si, se puede!”
Há meses planejamos a visita a Machu Picchu e a catástrofe impediu que pudessemos concretizar esse passeio.
Como forma de compensar, decidimos visitar ruinas de uma cidade “irma” de Machu Picchu: Choquequirao. A única forma de ir é um tour de 4 dias e 3 noites saindo de Cusco. Negociamos e fechamos o passeio.
Dois dias antes peguei uma gripe forte. Msm com mal estar enorme, nao cogitei cancelar o passeio e saímos segunda as 6h da manha de van para a cidade mais próxima: Cachora.
Chegamos a Cachora às 12h, almocamos e fomos conhecer a estrutura que levaría a mim, Magnum, um espanhol, um portugues e uma mexicana. Tinhamos um guia, tres mulas e dois cozinheiros. Os cavalos levavam nossa bagagem, comida, panelas, barracas, sacos de dormir, etc.
Saimos às 14h de 1800m de altitude com o objetivo cumprir os 20km propostos para o primeiro dia, que tinha clima bastante ameno e gostoso para caminhar. Com certo esforco terminamos às 18h30m um percurso relativamente tranquilo, com leves subidas e descidas. Dormimos em barracas, sem banheiro, sem chuveiro, sem energía eletrica. A gripe piorou um pouco, tomei remedios e dormi mto mto mto bem aos 2100m de altitude.
No café da manha do dia seguinte, o guia nos disse que o segundo dia seria o pior de todos. 8km de subida (entre 45 e 60 graus de inclinacao) para almocarmos em outro ponto de apoio a 2800m de altitude e, de la, decidirmos o q fazer.
Acordamos às 4h, tomamos café as 4h30 e saimos as 5h. As subidas eram inacreditaveis! Todas entre 45 e 60 graus de inclinacao. Nao havia nada plano, tampouco descida. Me esforcando ao máximo e ainda fraco da gripe, vomitei no km 3. Nessa hora, fiz uma oracao e mentalizei Pai Jose. No exato momento veio um aroma delicioso de hortela e foi-se embora com o meu mal estar. Nem sei se dá hortela naquelas alturas. Subimos mais um pouco e entre encontros com nativos e outros aventureiros, encontramos um guia sentado, que comecou a entoar o grito da torcida peruana: “Si, se puede!” para a gente.
Comecei a cantar tambem e animamos um pouco. Na subida, vimos umas pedras despencando das alturas numa montanha ao lado da nossa. Ficamos um tanto assustados.
Depois de 6h30m de subida, chegamos ao km 28 a 2800m de altitude. Almocamos e o guia disse que iríamos as ruinas ainda no segundo e nao no terceiro dia. Assim ganhariamos tempo na volta e chegariamos mais cedo em Cusco. Depois de melhorar um pouco, partimos.
Ainda no segundo dia, saimos do km 28 e chegamos ao 32 com muito esforco (3100m de altitude). Ficamos no parque ate anoitecer e como nao podíamos dormir no parque, voltamos do km 32 para o 28. Na volta, comecei a passar mal da gripe, com fraqueza e falta de ar. Quando nao aguentava mais subir, o guia comecou a gritar para corrermos, pq tinha ocorrido uma avalanche de pedras e arvores. Passamos por cima delas e sob suspeita de cairem mais, tivemos que correr. Comecou a me faltar ar e ultrapassei meu limite. Como nao podía parar, acabei vomitando de novo. Tive que interromper o vomito para sair da zona de risco de desabamentos e vomitei mais em outro lugar. O Magnum, amigao de sempre, me acompanhou e seguiu sempre o meu ritmo, msm sendo capaz de fazer tudo com mais rapidez.
Dormimos o segundo dia depois de caminharmos 16km (10 deles de subida extrema).
No terceiro dia, comecamos a voltar e caminhamos do km 28 ao 20 na descida, que fiz com destreza e tranquilidade. Ja melhor da gripe, tomamos chuva o tempo todo e o terreno comecou a ficar pura lama. Almocamos e caminhamos do km 20 ao 17 em subida. Terminamos umas 16h e eu, Magnum e o espanhol improvisamos um banho num tanque.
No quarto dia, dormimos mal por causa da ansiedade e saimos as 5h para terminar logo o tour. Com esforco terminamos hj do km 17 ao 0. A volta foi mais tranquila, pois melhorei da gripe e conheci meu ritmo de caminhada na subida, inspirado em uma senhora. Pé, antepé. Pé, antepé. Muuuito lento.
Nos despedimos dos cozinheiros e voltamos para Cusco em 4h de viagem. Chegamos a Cusco e fomos tomar um banho. Hoje eh quinta e o ultimo banho que tinhamos tomado foi domingo a noite. A estrutura poderia ser melhor, ja que os acampamentos eram precarios e a comida apenas razoavel. No total, caminhamos 64km nas montanhas em tres dias (tarde de segunda, terca, quarta e manha de quinta).
Minha mae e a Paulinha devem estar arrancando os cabelos de vontade de brigar comigo, mas valeu a pena o passeio. Concordo que fui imprudente fazendo tamanho esforco qdo deveria estar na cama, deitado, comendo canja. No entanto, por ter sido o maior esforco da mina vida, garanto que foi a melhor forma de eu conhecer a mim mesmo.
Meu principal aprendizado foi que preciso trabalhar melhor a minha paciencia. Fui o ultimo do grupo a terminar, mas consegui! No terceiro e quarto dia consegui dosar o ritmo e nao parava mais. Com paciencia e perseveranca, ao final acabei terminando à frente de outros grupos, mas pouco importava. O que importa é terminar. Outro aprendizado bastante importante é que esse NAO é meu tipo de passeio. Provavelmente tenha sido a ultima vez que pisei em uma trilha e nao pretendo fazer outra. Essa foi a ultima loucura que cometi nesta vida.
Contudo, posso dizer: VIM, VI e VENCI.
Beijo.
Amo vcs.
Tulio.
(nao se preocupem, estou repondo liquidos e comendo muito bem)