Vou falar sobre o meu chororô quando era criança. Eu chorava por qualquer coisa: primeira menina depois de dois filhos homens já era um bom motivo, claro. Acabei ficando manhosa. Provocava os meninos e quando percebia que iriam me bater já abria o maior berreiro e minha mãe, coitada, já gritava de longe pra me defender. Mas eu era também muito sensível. Chorava no cinema, não podia ver revólver em filme e nem violência de espécie alguma. Mas o que pegava mesmo eram as poesias. Até coloquei aqui. Esta danada desta poesia era a responsável pelas minhas muitas lágrimas. Eu achava (e ainda a acho) tão linda que chorava um monte. E meus irmãos e primos abusavam da minha sensibilidade e ficavam recitando só pra me provocar...
Está aí pra quem quiser conhecer ou reler.
A FLOR E A FONTE
"Deixa-me, fonte!" Dizia
A flor, tonta de terror.
E a fonte, sonora e fria,
Cantava, levando a flor.
"Deixa-me, deixa-me, fonte!"
Dizia a flor a chorar:
"Eu fui nascida no monte...
"Não me leves para o mar".
E a fonte, rápida e fria,
Com um sussurro zombador,
Por sobre a areia corria,
Corria levando a flor.
"Ai, balanços do meu galho,
"Balanços do berço meu;
"Ai, claras gotas de orvalho
"Caídas do azul do céu!...
Chorava a flor, e gemia,
Branca, branca de terror,
E a fonte, sonora e fria
Rolava levando a flor.
"Adeus, sombra das ramadas,
"Cantigas do rouxinol;
"Ai, festa das madrugadas,
"Doçuras do pôr do sol;
"Carícia das brisas leves
"Que abrem rasgões de luar...
"Fonte, fonte, não me leves,
"Não me leves para o mar!..."
As correntezas da vida
E os restos do meu amor
Resvalam numa descida
Como a da fonte e da flor...
(Vicente de Carvalho)


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